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sick (got a cold, or a flu?!)
Crítica de cinema
Onde os fracos não têm vez: instinto primitivo dá mote ao grande filme dos irmãos Coen.
A violência choca. Não importa qual a sua freqüência, o loca de sua prática, e principalmente a sua vítima. A única característica que altera a reação que se tem perante um ato violento é a sua intensidade. É difícil para a nossa sociedade aceitar pessoas perturbadas e violentas, como seres humanos dignos de ressalvas. Muitas vezes o que vemos são monstros, seres sanguinários que, dotados de inteligência sobrenatural, acabam nos vendo apenas como um degrau a ser pisoteado, para que o seu objetivo se encontre cada vez mais próximo.
Verdade seja dita que, a violência é tida como um dos instintos mais primitivos do homem. É difícil de encarar que todos nós temos um lado negro. Alguns mais intrínsecos, outros extremamente aflorados. Não é à toa que, de tempos em tempos, crimes bárbaros surgem na tevê e nas capas de revistas, para nos chocar e revoltar. Seja uma babá que espanca um idoso até a morte, ou seja o próprio pai que atira a filha do sexto andar de um prédio.
É exatamente sobre esse segundo grupo, ou seja, o de detentores de um lado negro aflorado, que a película dos irmãos Joel e Ethan Coen, Onde os fracos não têm vez (No country for old men, EUA, 2007), a grande vencedora da premiação do Oscar desse ano, com quatro estatuetas douradas, se apóia para discorrer sobre uma história passada na década de 80, que tem como base um romance homônimo, ganhador do prêmio Pulitzer.
Para Llewelyn Moss (Josh Brolin, de O gângster), um matuto caçador do estado americano do Texas, metido a espertalhão, encontrar uma valise recheada de dólares, em meio a uma típica cena de transação de drogas mal sucedida, ou seja, mortos atirados pelos cantos e carros tão esburacados quanto um queijo suíço, é realmente sinônimo de ter tirado a sorte grande, e estar ao mesmo tempo eximido de qualquer perigo real e imediato. Não contente em ficar com todo o dinheiro da maleta, Moss volta à cena do crime mais uma vez, mostrando assim a sua ingenuidade caipira.
Certo de um êxito pleno, e com uma saída quase que ilesa nessa sua empreitada no oportunismo do crime alheio, Llewelyn, junto com sua mulher, se retiram do pequeno vilarejo comandado pelo já decadente xerife Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones, de No vale das sombras), em busca de uma felicidade instantânea. Mais uma vez, Brolin consegue mostrar o quão ingênuo seu personagem é, afinal de contas, onde há dinheiro perdido, também há um dono à sua procura, e nesse caso, não é um dono qualquer. Ele é Anton Chigurh (Javier Bardem, de Mar Adentro), um profissional do crime.
É preciso dar um destaque mais do que especial ao personagem que Javier Bardem interpreta com brilhantismo – não à toa levou o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante – já que ele representa tudo o que expressei no início do texto, e vai além. Muito além. Adjetivos dos mais extensos vocabulários não seriam suficientes para descrever um personagem tão complexo quanto Anton. Insano, imoral, feio, prático e sanguinário tentariam, num sentido bem restrito da palavra resumir e elucidar o que se passa nos pensamentos mais sórdidos de um ser que tem a crueldade impregnada em cada célula de seu corpo.
Apesar da falta de malícia de Moss, ele consegue por quase duas horas de película tentar se desvencilhar das cruéis investidas de Anton, que dentre tantas maneiras para matar uma pessoa, escolhe como favorita uma arma de pressão para abater gado. Nada mais justo, tendo em vista o fato dele tratar aqueles que cruzam seu caminho como tal. Ainda na cola de ambos está o xerife Bell, que mesmo no alto de toda a sua experiência e destreza, encara os crimes com aparente passividade e por diversas vezes, ironia.
Em meio à aridez de Onde os fracos não têm vez, a corrida de um personagem sujo para destruir um mal-lavado, e as intempéries que essa caçada pode gerar, não há como negar que, apesar de um pouco vagarosa, a trama dos irmãos Coen arrematou as quatro estatuetas douradas com a mesma voracidade que Anton, um dos personagens mais indecentes de toda a história do cinema mundial, teria perante um ser oportunista e singelo como Moss.

criado por ivan chagas
15:34:18