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Antes de partir: no fim da vida, com a mesma atitude.
Os momentos que mais se aproximam do fim da vida sempre dão mote a diversas películas, que em sua grande maioria, acabam por enfocar dramas de fazer nossos olhos transbordarem em salgadas lágrimas. Não é para menos, já que, a morte nunca é encarada lá com grande naturalidade, ou simpatia. Claro, afinal de contas, não estamos falando do puro-osso, personagem retratado como a morte impregnada de mau humor, no desenho animado Billy e Mandy, do Cartoon Network. A situação é mais séria.
Talvez seja exatamente nesse modo diferenciado de encarar a proximidade da morte, que Antes de partir (The Bucket List, EUA, 2007), que chega essa semana em DVD no Brasil, abrace ternamente um grande público e sem restrições. A fita do diretor Rob Reiner (Alex & Emma) não trás lá uma grande arfada de ar fresco para o tema já bastante explorado no cinema. O que diferencia de fato todo o enredo e o caminho repleto de previsibilidades da fita, jogando-a para longe de um dramalhão bestial é, um tanto quanto estritamente, a atuação do sempre ótimo Morgan Freeman (Oscar por Menina de Ouro).
Freeman interpreta Carter Chambers, um mecânico que dedicou toda a sua vida a cuidar de sua oficina e, com muito esforço, fornecer o melhor possível para sua família. Sem aviso prévio, descobre que está com um câncer já estado avançado, e que seus dias na Terra estão praticamente contados. Internado às pressas para exames e tratamento, ele acaba, por grande ironia do destino, dividindo um quarto com Edward Cole (Jack Nicholson, de Os Infiltrados), proprietário do Hospital, que também está nas últimas.
Mesmo estando no mesmo local, obviamente o tratamento de Cole é completamente diferenciado daquele dado ao seu companheiro de quarto. Não tanto pelo fato do primeiro ser dono do local, e sim pela quantidade de dinheiro acumulado por esse, ao longo de sua vida. Sendo assim, Nicholson cai novamente num emaranhado de erros que comete em praticamente todos os seus personagens: ser ele mesmo.
Edward Cole é Jack Nicholson. Arrogante, egocêntrico, ninfomaníaco, desvairado, um ser preenchido por um medo constante de ser idoso. E para isso, ele nega até o último segundo sua condição de já não ser mais tão moço assim. Se pega a todo momento na cola de mulheres muito mais jovens que ele. Rabugento e encrenqueiro, ele é desprovido de qualquer apego aos seus familiares, e vice-versa, e no fim das contas, tenta, em vão, fazer de seus personagens, seres superiores aos personagens de seus colegas de trabalho, aqui no caso, Freeman.
Sempre pensando que o dinheiro comprado tudo e todos, Cole resolve proporcionar a Carter seus últimos desejos em vida. Para isso, eles fazem em conjunto, uma lista (daí o título do filme, já que kick the bucket, em inglês significa “bater as botas”) com diversos últimos excêntricos desejos, a serem realizados em tempo recorde, ou seja, antes da morte de ambos. E não apenas o tempo de suas vidas urge, mas o tempo da película também. E urge tanto que o diretor não consegue dar grande ênfase em todas as viagens e lugares visitados pela dupla, sendo assim, é obrigado a fazer um apanhado mais do que apressado de varias belas paisagens ao redor do planeta, e colocar, por meio de computação, os dois personagens centrais nos destinos claramente não visitados.
Enganam-se aqueles que pensam que o personagem de Nicholson simplesmente, sem mais nem menos, se transforma em uma alma caridosa. O fato é que Edward não tem absolutamente ninguém a quem se apegar em seus últimos dias de vida. Devo admitir que Nicholson consegue firmar o pouco carisma que seu personagem e sua pessoa possuem quando a fita chega aos seus minutos derradeiros. Isso não é ruim, apenas deveria ser consertado de alguma maneira com antecedência maior. Já repleto de emoções à flor da pele, enfim, ele mostra seu lado sentimental, sem ser sentimentalóide, e põe um ponto final em Antes de partir, demonstrando que a amizade de Carter poderia ter sido ainda mais duradoura, não fosse o pouco tempo que restava a suas vidas.
Currently listening: Sunday, bloody Sunday U2 COVER, by Paramore.

criado por ivan chagas
14:59:08