Acid Boy

Um blog feito por um Jornalista (por formação), e crítico de cinema (por insistência e paixão). Aqui se encontra, ao menos alguma parte de você em mim, nas minhas palavras e pensamentos. So, keep coming back for more!

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Terra Blog

Arquivo de: Outubro 2008

17.10.08

:: Crítica - Ensaio sobre a cegueira ::

Current mood: ok.

 

Ensaio sobre a cegueira: Meirelles tenta ajustar a brancura de Saramago.

 

Creio que não faz muito tempo que reportei em alguma de minhas críticas que as adaptações de grandes obras literárias para as telas de cinema estão cada vez mais em alta. Não me lembro a qual filme me referia na ocasião, mas posso citar títulos desde best-sellers, como O caçador de pipas, até ganhadores de Oscar, a exemplo de Onde os fracos não têm vez, ou ainda películas que nos fazem surpreender quando descobrimos que suas origens são páginas de livros, como o blockbuster Eu sou a lenda.

 

Quer queira ou não, quando uma adaptação é levada para o cinema, o que mais se espera é a sua fidelidade para com a literatura. Para diretores e roteiristas, encontrar brechas e licenças na sua criação – baseando-se na criação alheia, é bem verdade – são as maiores dificuldades encontradas na transposição da obra, que quando alteradas, provocam, invariavelmente a ira de fiéis leitores, e da crítica – por diversas vezes imperdoáveis.

 

A adaptação mais esperada desta temporada, ainda em exibição nos cinemas de todo o mundo, e que tem gerado grande polêmica, ao meu ver, até agora sem explicação, é Ensaio sobre a cegueira (Blindness, CAN, BRA, JAP, 2008), dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles (Cidade de Deus, O jardineiro fiel), e baseado na obra do escritor português José Saramago, ganhador do prêmio Nobel de literatura.

 

Creio que nunca tive tanto conhecimento de causa para escrever um texto como o que estou fazendo hoje, afinal de contas, tive a oportunidade de ler Ensaio sobre a cegueira, antes de assistir ao filme nos cinemas, e posso dizer com todas as letras, que desde o primeiro minuto de fita, desde os close-ups nas alterações de verdes, amarelos e vermelhos do semáforo, tive a mais plena certeza de que Meirelles se superaria mais uma vez, realizando um trabalho excepcional atrás das câmeras.

 

A premissa da obra de Saramago é demasiadamente intrigante. De dentro de seu carro, um homem espera o semáforo abrir, quando sem razão alguma ele cega. Uma cegueira branca, como se ele estivesse submerso, porém com os olhos abertos, em um mar de leite. Este homem é o primeiro de muitos que irão cegar dentro de dias e meses, até que toda a população de uma megalópole também deixe de enxergar, transformando a cidade em um mar de caos, desordem, lixo, podridão.

 

Frente a todo o medo de contágio que a cegueira branca gera na população, o governo decide isolar os contaminados, e até mesmo aqueles que já tiveram contato com os cegos, em locais isolados e guardados por homens armados, com ordens de matar qualquer um que tente atravessar seu limite. Peculiarmente, os personagens não possuem nome, apenas uma pouca identidade.

 

A trama é encabeçada por um médico oftalmologista (Mark Ruffalo, de Traídos pelo destino), sua mulher, imune à cegueira branca (Julianne Moore, de Filhos da Esperança), uma prostituta (a brasileira Alice Braga, de Eu sou a lenda), e conta com alguns outros personagens secundários, porém essenciais para que o enredo se discorra, como é o caso do velho da venda preta (papel de Danny Glover), e o rei da ala 3 (Gael García Bernal, de Diários de motocicleta).

 

Creio que o massacre pelo qual a fita de Meirelles têm passado, seja de um comportamento burro por parte da grande maioria da crítica. Mas sendo adverso, desde quando a opinião de uma grande maioria é essencialmente correta. Generalizações e maiorias, quando não apoiadas em opiniões corretas, se confundem sim. Erram sim, e mal julgam também.

 

As distorções de luz e imagem, a brancura extrema e desconfortante de Meirelles, junto às atuações sem grandes surpresas de um elenco que poderia ter feito mais, e uma história tão pálida quanto à da obra, fazem de Ensaio sobre a cegueira o que ele realmente é: mediano. É ininteligível que uma classe de pessoas culpe um diretor por ter feito exatamente o mesmo que uma obra o é, afinal de contas, pensem na dificuldade de transpor a cegueira para um público que vê.

 

Sem bobagens meditatórias ou conspiratórias, do tipo “a mulher do médico era Deus, e conseqüentemente os olhos que guiava a humanidade”, ou ainda “temos que nos conscientizar sobre o que a sociedade está fazendo com si mesma”, Fernando Meirelles faz, com esmero, o que está ao seu alcance: dar visão própria à uma obra já cega desde sua escrita.

02.10.08

:: Crítica de cinema - Capítulo 27 ::

Current mood:  cold.

 

Crítica de cinema

 

Capítulo 27: assassino de John Lennon dissecado com minúcias.

 

 

 O dia 8 de novembro de 1980 se tornou fatídico quando cinco disparos de arma de fogo ecoaram na anormal quietude do céu de Nova Iorque. Em frente ao edifício Dakota, localizado à Rua 72 com Central Park West, em Manhattan, Mark David Chapman, como ele mesmo descreveria, um homem pacato e vulnerável frente a um mundo repleto de dor e falsidade, cometia um dos crimes mais chocantes daquela época: o assassinato do ex-Beatle John Lennon.

 

Uma história real como a morte de uma das mentes mais brilhantes que a música já conheceu, provavelmente será contada várias vezes, e cada qual ao seu modo e peculiaridades. Talvez isso ainda não tenha sido feito devido ao enorme poder que a viúva de John, Yoko Ono, parece possuir sobre os direitos, sobre a imagem, sobre a história de seu ex-marido, e se limita ao máximo em não comentar absolutamente nada a respeito da vida e da morte do mesmo.

 

A visão mais recente, e a única que conheço até então sobre o crime cometido pelo desequilibrado Mark Chapman, é a do diretor estreante J.P Schaefer que, baseado na obra Let me take you down: por dentro da mente de Mark David Chapman, o homem que matou John Lennon , conseguiu realizar a película Capítulo 27 (Chapter 27, EUA, 2008), lançada essa semana, diretamente em formato DVD, nas locadoras do Brasil.

 

O pensamento de que, para se ter compensações, sempre são necessários grandes sacrifícios, no cinema, tem se transformado de alternativa à regra. Em filmes baseados em fatos reais, como é o caso de Capítulo 27, essa máxima é ainda mais forte. O filme é, exclusivamente sobre o algoz, portanto, em sua grande parte, o assassino de Lennon, acaba por dialogar com seu interior: o que ele pensa, como ele deve agir ao se encontrar com sua vítima, suas angústias, frustrações e expectativas. Um fluxo de consciência quase que constante, e que funciona de maneira incrível para expressar a instabilidade emocional do protagonista.

 

Para o papel de Chapman, foi escolhido o magricelo Jared Leto. Até então, um ator de pouco reconhecimento no cinema. Seu grande destaque foi no alternativo e excelente Réquiem para um sonho. Atualmente, Leto é mais famoso por ser vocalista da banda emo – o lápis preto nos olhos, e franja na fronte atestam o que digo – 30 seconds to Mars. Como o assassino era um homem rechonchudo, feio e desengonçado, é mais do que evidente o esforço que Jared teve que fazer para talvez mirar um Oscar: engordar quase trinta quilos para o papel, que ainda necessitou de trejeitos e mudanças na fala. A transformação, deu-se excepcional.

 

Chapman detesta cinema, falsidade, vulgaridade. Antes de matar John, se hospeda em hotéis, bebe drinks, se diverte com uma prostituta, e apesar de se achar a única pessoa normal na cidade, deixa escapar momentos de nervosismo. Tudo nele é patológico. Seus gestos, seu modo de falar, as mentiras que conta. As semelhanças com Holden Caufield, o protagonista de O apanhador no campo de centeio – livro encontrado com Chapman na hora do crime – não são mera coincidências. Ele não apenas admirava o garoto de 17 anos, protagonista da obra literária, como achava que era o próprio Holden.

 

Para dar ainda mais veracidade à película, as cenas são feitas quase que completamente na calçada do Dakota que, por si só, já emanava um ar sombrio. A participação de outros personagens na trama são extremamente superficiais, como é o caso da garota Jude (papel da adolescente problema Lindsay Lohan), que esperava junto a Chapman, a chegada de Lennon para uma conversa, um autógrafo ou apenas um “oi”.

 

Um drama denso, uma atuação impecável, e direção estreante com o pé direito, claramente tinham o direito de um reconhecimento melhor, e um acolhimento maior do público. Ainda não sei dizer se pela pequena produtora, ou se por problemas burocráticos (Yoko, talvez?), Capítulo 27 não conseguiu o destaque merecido. Intercalando alguns depoimentos verídicos de fãs da época, a fita ainda exibe algumas curiosidades e particularidades do brutal assassinato, mas acima de tudo, disseca com expressividade um homem que fez seu nome ser reconhecido, tornando o de outro, apenas uma lenda.