Acid Boy

Um blog feito por um Jornalista (por formação), e crítico de cinema (por insistência e paixão). Aqui se encontra, ao menos alguma parte de você em mim, nas minhas palavras e pensamentos. So, keep coming back for more!

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Terra Blog

Arquivo de: Outubro 2008, 02

02.10.08

:: Crítica de cinema - Capítulo 27 ::

Current mood:  cold.

 

Crítica de cinema

 

Capítulo 27: assassino de John Lennon dissecado com minúcias.

 

 

 O dia 8 de novembro de 1980 se tornou fatídico quando cinco disparos de arma de fogo ecoaram na anormal quietude do céu de Nova Iorque. Em frente ao edifício Dakota, localizado à Rua 72 com Central Park West, em Manhattan, Mark David Chapman, como ele mesmo descreveria, um homem pacato e vulnerável frente a um mundo repleto de dor e falsidade, cometia um dos crimes mais chocantes daquela época: o assassinato do ex-Beatle John Lennon.

 

Uma história real como a morte de uma das mentes mais brilhantes que a música já conheceu, provavelmente será contada várias vezes, e cada qual ao seu modo e peculiaridades. Talvez isso ainda não tenha sido feito devido ao enorme poder que a viúva de John, Yoko Ono, parece possuir sobre os direitos, sobre a imagem, sobre a história de seu ex-marido, e se limita ao máximo em não comentar absolutamente nada a respeito da vida e da morte do mesmo.

 

A visão mais recente, e a única que conheço até então sobre o crime cometido pelo desequilibrado Mark Chapman, é a do diretor estreante J.P Schaefer que, baseado na obra Let me take you down: por dentro da mente de Mark David Chapman, o homem que matou John Lennon , conseguiu realizar a película Capítulo 27 (Chapter 27, EUA, 2008), lançada essa semana, diretamente em formato DVD, nas locadoras do Brasil.

 

O pensamento de que, para se ter compensações, sempre são necessários grandes sacrifícios, no cinema, tem se transformado de alternativa à regra. Em filmes baseados em fatos reais, como é o caso de Capítulo 27, essa máxima é ainda mais forte. O filme é, exclusivamente sobre o algoz, portanto, em sua grande parte, o assassino de Lennon, acaba por dialogar com seu interior: o que ele pensa, como ele deve agir ao se encontrar com sua vítima, suas angústias, frustrações e expectativas. Um fluxo de consciência quase que constante, e que funciona de maneira incrível para expressar a instabilidade emocional do protagonista.

 

Para o papel de Chapman, foi escolhido o magricelo Jared Leto. Até então, um ator de pouco reconhecimento no cinema. Seu grande destaque foi no alternativo e excelente Réquiem para um sonho. Atualmente, Leto é mais famoso por ser vocalista da banda emo – o lápis preto nos olhos, e franja na fronte atestam o que digo – 30 seconds to Mars. Como o assassino era um homem rechonchudo, feio e desengonçado, é mais do que evidente o esforço que Jared teve que fazer para talvez mirar um Oscar: engordar quase trinta quilos para o papel, que ainda necessitou de trejeitos e mudanças na fala. A transformação, deu-se excepcional.

 

Chapman detesta cinema, falsidade, vulgaridade. Antes de matar John, se hospeda em hotéis, bebe drinks, se diverte com uma prostituta, e apesar de se achar a única pessoa normal na cidade, deixa escapar momentos de nervosismo. Tudo nele é patológico. Seus gestos, seu modo de falar, as mentiras que conta. As semelhanças com Holden Caufield, o protagonista de O apanhador no campo de centeio – livro encontrado com Chapman na hora do crime – não são mera coincidências. Ele não apenas admirava o garoto de 17 anos, protagonista da obra literária, como achava que era o próprio Holden.

 

Para dar ainda mais veracidade à película, as cenas são feitas quase que completamente na calçada do Dakota que, por si só, já emanava um ar sombrio. A participação de outros personagens na trama são extremamente superficiais, como é o caso da garota Jude (papel da adolescente problema Lindsay Lohan), que esperava junto a Chapman, a chegada de Lennon para uma conversa, um autógrafo ou apenas um “oi”.

 

Um drama denso, uma atuação impecável, e direção estreante com o pé direito, claramente tinham o direito de um reconhecimento melhor, e um acolhimento maior do público. Ainda não sei dizer se pela pequena produtora, ou se por problemas burocráticos (Yoko, talvez?), Capítulo 27 não conseguiu o destaque merecido. Intercalando alguns depoimentos verídicos de fãs da época, a fita ainda exibe algumas curiosidades e particularidades do brutal assassinato, mas acima de tudo, disseca com expressividade um homem que fez seu nome ser reconhecido, tornando o de outro, apenas uma lenda.