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Ensaio sobre a cegueira: Meirelles tenta ajustar a brancura de Saramago.
Creio que não faz muito tempo que reportei em alguma de minhas críticas que as adaptações de grandes obras literárias para as telas de cinema estão cada vez mais em alta. Não me lembro a qual filme me referia na ocasião, mas posso citar títulos desde best-sellers, como O caçador de pipas, até ganhadores de Oscar, a exemplo de Onde os fracos não têm vez, ou ainda películas que nos fazem surpreender quando descobrimos que suas origens são páginas de livros, como o blockbuster Eu sou a lenda.
Quer queira ou não, quando uma adaptação é levada para o cinema, o que mais se espera é a sua fidelidade para com a literatura. Para diretores e roteiristas, encontrar brechas e licenças na sua criação – baseando-se na criação alheia, é bem verdade – são as maiores dificuldades encontradas na transposição da obra, que quando alteradas, provocam, invariavelmente a ira de fiéis leitores, e da crítica – por diversas vezes imperdoáveis.
A adaptação mais esperada desta temporada, ainda em exibição nos cinemas de todo o mundo, e que tem gerado grande polêmica, ao meu ver, até agora sem explicação, é Ensaio sobre a cegueira (Blindness, CAN, BRA, JAP, 2008), dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles (Cidade de Deus, O jardineiro fiel), e baseado na obra do escritor português José Saramago, ganhador do prêmio Nobel de literatura.
Creio que nunca tive tanto conhecimento de causa para escrever um texto como o que estou fazendo hoje, afinal de contas, tive a oportunidade de ler Ensaio sobre a cegueira, antes de assistir ao filme nos cinemas, e posso dizer com todas as letras, que desde o primeiro minuto de fita, desde os close-ups nas alterações de verdes, amarelos e vermelhos do semáforo, tive a mais plena certeza de que Meirelles se superaria mais uma vez, realizando um trabalho excepcional atrás das câmeras.
A premissa da obra de Saramago é demasiadamente intrigante. De dentro de seu carro, um homem espera o semáforo abrir, quando sem razão alguma ele cega. Uma cegueira branca, como se ele estivesse submerso, porém com os olhos abertos, em um mar de leite. Este homem é o primeiro de muitos que irão cegar dentro de dias e meses, até que toda a população de uma megalópole também deixe de enxergar, transformando a cidade em um mar de caos, desordem, lixo, podridão.
Frente a todo o medo de contágio que a cegueira branca gera na população, o governo decide isolar os contaminados, e até mesmo aqueles que já tiveram contato com os cegos, em locais isolados e guardados por homens armados, com ordens de matar qualquer um que tente atravessar seu limite. Peculiarmente, os personagens não possuem nome, apenas uma pouca identidade.
A trama é encabeçada por um médico oftalmologista (Mark Ruffalo, de Traídos pelo destino), sua mulher, imune à cegueira branca (Julianne Moore, de Filhos da Esperança), uma prostituta (a brasileira Alice Braga, de Eu sou a lenda), e conta com alguns outros personagens secundários, porém essenciais para que o enredo se discorra, como é o caso do velho da venda preta (papel de Danny Glover), e o rei da ala 3 (Gael García Bernal, de Diários de motocicleta).
Creio que o massacre pelo qual a fita de Meirelles têm passado, seja de um comportamento burro por parte da grande maioria da crítica. Mas sendo adverso, desde quando a opinião de uma grande maioria é essencialmente correta. Generalizações e maiorias, quando não apoiadas em opiniões corretas, se confundem sim. Erram sim, e mal julgam também.
As distorções de luz e imagem, a brancura extrema e desconfortante de Meirelles, junto às atuações sem grandes surpresas de um elenco que poderia ter feito mais, e uma história tão pálida quanto à da obra, fazem de Ensaio sobre a cegueira o que ele realmente é: mediano. É ininteligível que uma classe de pessoas culpe um diretor por ter feito exatamente o mesmo que uma obra o é, afinal de contas, pensem na dificuldade de transpor a cegueira para um público que vê.
Sem bobagens meditatórias ou conspiratórias, do tipo “a mulher do médico era Deus, e conseqüentemente os olhos que guiava a humanidade”, ou ainda “temos que nos conscientizar sobre o que a sociedade está fazendo com si mesma”, Fernando Meirelles faz, com esmero, o que está ao seu alcance: dar visão própria à uma obra já cega desde sua escrita.

criado por ivan chagas
16:27:48