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A vida dos outros: a Alemanha, mais uma vez, explorando o que o país teve de pior.
Muitas vezes, assistir um filme de simples realização, sem grandes efeitos especiais, orçamentos milionários, ou com um elenco recheado de rostos conhecidos do grande público, parece nos fazer ter a sensação de brisa fresca em manhã de verão. É uma pena que o Brasil não transite entre os grandes receptores da cultura européia, e se foque apenas em passar para aqueles que têm acesso ao cinema, a massificada e previsível cultura norte-americana (que deixo claro aqui, gostar tanto quanto a minha própria cultura!).
É bastante evidente que os europeus têm um modo completamente diferenciado para realizar cinema. A filmagem, os enquadramentos, as cores, os enredos, os valores e obviamente, o fator lingüístico. Talvez até seja por isso que tantos bons filmes europeus fiquem anos-luz de chegar por terras tupiniquins. Bom, a internet de certa forma nos ajuda a encontrá-los, mas “dentro da legalidade”, isso é praticamente raro.
Fugindo um pouco dessa dificuldade, finalmente depois de alguns meses de marasmos e mesmices que aportam no Brasil, parece-me que o sopro de ar finalmente bateu em meu rosto. Talvez me pegue nessa crítica não apenas julgando o que é bom, ou ruim. Quero estar aqui longe de maniqueísmos. Talvez queira hoje, e só por hoje, julgar o que é diferente.
Não é novidade alguma que, países que possuem grandes e profundas cicatrizes históricas, anos depois do sofrimento, tendem a revirar o passado através da sétima arte. Para o Brasil, assim como para os nossos vizinhos argentinos, a ditadura militar é um tema recorrente nas películas nacionais, e que sempre acabam rendendo bons frutos, que deixam o cinema latino-americano orgulhosos. No velho continente, o cinema alemão sempre consegue um destaque um pouco maior do que dos outros países. Particularmente, os poucos filmes alemães que tive a oportunidade de assistir realmente me fascinaram.
Seguindo uma temática alemã, mas com projeção mundial, que foi o período do pós-guerra, chega às locadoras brasileiras A vida dos outros (Das Leben der Anderen, Alemanha, 2006), a película ganhadora do Oscar de melhor filme estrangeiro do ano passado, e que mostra como, no período da Guerra Fria, a Stasi – polícia política da República Democrática Alemã - tentava assegurar seu poder sobre a sociedade, através de um sádico sistema de vigilância e repressão.
Com um orçamento de apenas US$ 2 milhões (isso é muito pouco no meio cinematográfico), o diretor Florian Henckel von Donnersmarck, faz um retrocesso até a Alemanha de 1984, para mostrar a metamórfica história do capitão Gerd Wiesler (Ulrich Mühe, morto em julho de 2007), um agente do governo da Berlim Oriental, que tinha como trabalho, vigiar e delatar aqueles que pudessem ser uma ameaça conspiratória em potencial.
Orgulhoso e convicto dos métodos que o estado utiliza para conseguir alcançar seus fins, Wiesler fica encarregado de vasculhar a vida de Georg Dreyman (Sebastian Koch), escritor e dramaturgo, e sua namorada Christa (Martina Gedeck), uma famosa atriz dos palcos alemães. O problema do solitário espião tem início quando ele se apega ao casal vigiado, se identificando ao extremo com Dreyman, percebendo que a vida é muito mais do que uma perseguição política, ocultando assim informações comprometedoras.
O drama tem todas as marcas de uma fita européia. É fria, possui ritmo desacelerado, tem um valor orçamentário baixo, porém é simples, sem rodeios e revive o passado de tensão e rispidez do país em questão. Talvez o grande trunfo de A vida dos outros, alem da falta de vergonha em mostrar o passado recente de uma Alemanha totalitarista e sem escrúpulos, não seja apenas mostrar a desilusão do espião, mas mostrar também a desilusão do espionado, exatamente naquilo em que cada um mais acredita.
Currently listening: American Idol's performances Season 7.
criado por ivan chagas
13:11:34