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Na natureza selvagem: sonhos, perseverança e tragédia.
Quem nunca acordou com uma enorme ânsia de simplesmente desaparecer no mundo, sem deixar rastros, e viver apenas do que a natureza nos pode propiciar? Esquecer que existe uma sociedade capitalista que te obriga a se encaixar cada vez mais corretamente à regras, horários, compromissos, sem nem ao menos poder perguntar o porquê de as coisas serem como são? Eu sim, admito que já pensei dessa maneira.
Em 1990, Christopher McCandless, um aluno norte-americano recém formado, tem o mesmo insight de abandonar tudo que lhe cerca – sua família, bens e um futuro brilhante no Direito - e leva a ferro e fogo a idéia de viajar pelo grande território dos Estados Unidos e chegar, a qualquer custo, no gélido e inóspito Alasca. Essa é a história real que dá mote a fita Na natureza selvagem (Into the wild, EUA, 2007), dirigida pelo ator Sean Penn (Oscar de melhor ator por Sobre Meninos e lobos), e que chega essa semana em DVD no Brasil.
O longa-metragem é baseado no livro homônimo, escrito pelo jornalista Jon Krakauer, que teve acesso a todas as anotações feitas por McCandless durante a viagem, sendo em seu diário ou nos inúmeros livros que ele costuma ler e citar em suas conversas com as pessoas que cruzavam seu caminho, oferecendo a ele desde uma simples carona, até um emprego temporário.
Sean Penn realmente consegue fazer desse drama um filme belo e tocante. Com a ajuda do diretor de fotografia Eric gautier, ele retira uma beleza simples, porém magnífica do que a natureza mais pode nos oferecer, que são suas paisagens. Penn também consegue retirar brilhantismo da interpretação do jovem Emile Hirsch (de Speed racer), que faz o papel do protagonista da história, agora rebatizado Alexander Supertramp, para deixar, definitivamente, o passado distante. Sem exageros, sem dramaticidade barata. Ele age como realmente deve: sendo livre de apego a coisas, pessoas e lugares.

Emile e Sean: trabalho pesado leva a bom resultado.
Para alguns, esse desapego completo de Christopher, e a filosofia de vida que mescla natureza e aventura extremas, criticando a regrada sociedade capitalista, poderia até beirar um pseudo-socialismo, ou exagerando muito, um comunismo pretensioso. E isso poderia ser mais um erro fatal que Penn consegue evitar.
A viagem de Alex, ou Chris, dura dois longos anos, nos quais ele evita todo e qualquer contato com seus pais, vividos por Márcia Gay Harden e William Hurt. Durante todo esse tempo ele deixa sem notícias até mesmo sua irmã Carine (Jena Malone), com que possuía um bom relacionamento e que narra parte da história do aventureiro.
Apesar de tudo o que já disse sobre o filme, e conseqüentemente a história de Christopher, a qualidade do filme que mais gostaria de destacar é o fato de que aqui nada tem pretensão de ser romanceado. O aventureiro não tem pretensões de salvar animais no Alasca, ou salvar a natureza de uma desenfreada e descerebrada ação humana. Ele quer apenas vivenciar uma experiência de autoconhecimento, e para tal precisa ficar sozinho, nem que isso custe sua própria vida.
Talvez sugado pela própria natureza, o fim de Christopher não tenha sido o mais justo para uma pessoa que, apesar de alguns pontos de egoísmo, como é o caso de não avisar a família de seu paradeiro, ele se mostra muito gentil em ser um bom ouvinte para aqueles que cruzam seu caminho em sua jornada - destaque aqui para o comovente Don (Hal Holbrook, indicado ao Oscar), mostrando assim que, como Chris mesmo parafrasearia Lord Byron, o protagonista “não ama menos o homem; mas mais a Natureza”.
Currently listening: Don't make me wait, by Locksley.
criado por ivan chagas
15:27:00