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sick (got a sore throat)
Santos e demônios cai na seqüência de: vida real, livro e cinema.
Biografias são histórias que sempre atraem bastante a atenção do público, pois em geral têm como personagem de análise, uma figura já popular. Mas acima dessas histórias, estão as autobiografias, que, como o nome mesmo diz, são memórias escritas pelo próprio personagem principal. Eu digo que elas estão acima de qualquer outro tipo de memória, por saber que, escrever sobre si mesmo, é sempre muito complicado. O escritor sempre se encontra em tênues linhas de verdades e mentiras. Para quem ainda não se deu conta, um escritor é, de fato, um contador de histórias.
No meio do entretenimento e da cultura atuais, se um livro se torna best-seller, independente da temática, ele fatalmente se transformará em película de sucesso ao redor do planeta. Mas o que realmente me intriga é o risco que se corre em realizar um filme baseado numa autobiografia “falida”, um tanto quanto desconhecida do público, e que, provavelmente só teria sentido para o próprio escritor.
O que me fez chegar a esse questionamento foi Santos e demônios (A guide to recognizing your saints, EUA, 2006), um filme baseado numa autobiografia de Orlandito Montiel – você se pergunta quem é esse? – e que acabou se tornando um filme. O que intriga é o fato de Dito, como é conhecido, antes de lançar o livro e até mesmo antes desse chegar a ser filme, não era um popstar, ou astro de cinema, tem origem latina, o que gera preconceito nos EUA, e era alvo de sucessivos projetos mal sucedidos na indústria do entretenimento americano.
O fato foi que, em 2003, após lançar a sua precoce autobiografia, o garoto descendente de latinos, que passou toda a sua infância em Astória, no Queens, um bairro meio barra pesada de Nova Iorque, acabou chamando a atenção do cantor Sting e do ator e produtor Robert Downey Jr., tornando-se assim realizadores de Santos e demônios, fita que aportou nas locadoras brasileiras nessa semana. Apesar de toda a desconfiança sobre uma película sem referências, realizada sobre um filme sem referência alguma, Santos e demônios não faz feio. Nem um pouco eu diria.
A história, que se passa em duas partes, é dotada de alguns clichês básicos, como o filho que se revolta com um lugar sem ambições, ou o alçar de vôo solo, abandonando a família e os amigos, ou ainda a volta ao ambiente de infância, após anos longe dos entes queridos, mas colocando de lado esses itens de série de diversos drama, o enredo é bem conduzido.
Na adolescência, a maior parte da película, Dito é interpretado, com desenvoltura, por Shia Labeouf (dos excelentes Transformers e Paranóia), que juntamente a três amigos inseparáveis, levam a vida do jeito que dá, num bairro nada bem freqüentado. Quando dito finalmente tenta fazer algo de bom, acaba se envolvendo numa briga entre pequenas gangues, que o leva a finalmente desistir de ficar naquele lugar, que, para ele, não tem mais para onde crescer. Fugido, Dito vai para a Califórnia, tentar uma vida mais digna.
Quinze anos depois, já interpretado pelo produtor da fita, Robert Downey Jr. (de Zodíaco), Dito se depara com a doença do pai, que se recusa a se internar num hospital para tratamento. Cedendo a apelos por parte da mãe e dos amigos de infância, ele retorna à Nova Iorque para tentar reaver o que perdeu durante todo esse tempo “longe de casa”.
Com a fita que ainda conta com um final mea-culpa, Dito Montiel, também diretor da fita, acabou finalmente ganhando notoriedade, e até levou o prêmio de melhor diretor no Festival de Sundance de 2006. O elenco, afiadíssimo abocanhou um prêmio em conjunto. Talvez pela falta de conhecimento que as pessoas tinham com relação ao protagonista da película, o filme não fez grandes números nos cinemas. Agora em DVD, é a hora de reparar o erro e dar ouvidos a uma voz já um pouco mais conhecida.
criado por ivan chagas
11:31:10